| Câmara
autoriza pesquisas com células-tronco
LUCIANA CONSTANTINO
LEILA SUWWAN
da Folha de S.Paulo, em Brasília
A Câmara dos Deputados aprovou ontem à noite
a Lei de Biossegurança, regulamentando a pesquisa com
células-tronco de embriões e o plantio e a comercialização
de produtos transgênicos.
Deputados contrários à pesquisa com células-tronco
tentaram até o último momento retirar a medida
do texto, prevista no artigo 5º, após muita discussão.
Foram derrotados com a rejeição do destaque
que pedia a supressão do artigo --366 votos a favor
da manutenção da autorização à
pesquisa, 59 contrários e 3 abstenções.
O único partido a encaminhar posição
contrária ao artigo 5º foi o Prona.
Os outros votos contrários eram, na maioria, de parlamentares
ligados à Igreja Católica, que condena o uso
de embriões em pesquisa, e à bancada evangélica,
que ficou dividida. Os deputados ligados à Igreja Universal,
por exemplo, votaram a favor.
O deputado Salvador Zimbaldi, do PTB de São Paulo,
afirmou que irá recorrer ao Supremo Tribunal Federal
contra o projeto, que ele considera inconstitucional.
Pacientes com deficiências físicas que podem
ser beneficiados com as pesquisas no futuro passaram o dia
no Salão Verde da Câmara, conversando com deputados,
relatando seus casos e pedindo a aprovação do
texto. Vários acompanharam a sessão. Depois,
voltaram ao Salão Verde para comemorar. Alguns choraram.
"Estou radiante. Foi uma história muito suada,
mas valeu a pena", disse Mayana Zatz, geneticista da
USP que foi a principal articuladora dos interesses dos cientistas
no Congresso.
Desde segunda-feira, grupos de movimentos pró e contra
pesquisas com células-tronco fizeram atos de pressão
na Câmara. A aprovação do texto-base,
modificado no Senado no final do ano passado, foi por 352
votos a favor, 60 contrários e 1 abstenção.
O padre Márcio Fabri, teólogo e bioeticista
do Centro Universitário São Camilo, em São
Paulo, criticou o que considera um erro de foco na discussão.
"Infelizmente, a discussão toda tomou um caminho
em que interesses não-declarados fizeram uma onda maior",
disse. "Esses interesses não são apenas
pelo progresso da humanidade, mas de transformar os serviços
em produtos."
Pelo texto aprovado ontem, a clonagem humana continua proibida.
O texto agora será encaminhado à sanção
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Investimentos
Segundo o ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo
Campos, com a aprovação do projeto, será
possível em 15 dias preparar o lançamento de
um edital visando destinar recursos para pesquisas com células-tronco
embrionárias. Segundo o ministro, o total investido
pode passar dos cerca de R$ 30 milhões ao ano para
R$ 100 milhões, além da possibilidade de captação
de recursos externos.
O início da sessão da Câmara foi tumultuado.
Houve uma tentativa de deputados contrários à
pesquisa com células-tronco de estender a discussão,
mesmo com um acordo de líderes para que ela fosse encerrada.
Com o apoio do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti
(PP-PE), a discussão foi prolongada, levando o governo
a pedir votação nominal para o requerimento
que solicitava o fim do debate do projeto.
"Peço aos deputados que não provoquem
a suspensão da sessão", chegou a dizer
Severino Cavalcanti enquanto presidia a votação.
Ele saiu da Câmara por volta das 21h30, considerando
o projeto aprovado, antes de o resultado ser divulgado. Em
reunião no final da tarde, Cavalcanti, que é
católico, disse que seria "juiz" e colocaria
a proposta em votação.
Cavalcanti fez a promessa a sua filha, a deputada estadual
Ana Cavalcanti (PP-PE), que é fisioterapeuta e defende
a liberação da pesquisa. "A deputada Ana
Cavalcanti fez um apelo a mim, dizendo: "Papai, evolua
um pouco. Aprove esse projeto, faça ele correr o mais
rápido possível'".
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