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Infertilidade e Concepção Assistida
Um guia para o casal

CAPITULO 1

A dificuldade para engravidar. Um problema atual.


Ricardo Mello Marinho
João Pedro Junqueira Caetano
Leonardo Meyer de Moraes

Por que tantos casais hoje não conseguem ou têm dificuldade para engravidar? Por que tanto se fala hoje em tratamento do casal sem filhos? Qual a diferença entre infertilidade ou esterilidade? A infertilidade está aumentando? Os tratamentos hoje existentes resolvem qualquer problema ? São muitas as dúvidas ligadas á reprodução humana que povoam as mentes das pessoas, especialmente às dos casais que têm dificuldade em concretizar o sonho de ter uma criança.

Infertilidade ou esterilidade ?

Na pratica podemos considerá-las quase sinônimos, embora os textos médicos às dêem significados diferentes, mas sem uma concordância entre os autores. Mais comumente , a infertilidade é definida como a dificuldade em se alcançar a gravidez. Alguns a consideram como a incapacidade de se levar a gravidez até próximo ao termo, ou seja, a uma a idade viável para o nascimento e sobrevida do recém nascido. Para a maioria, este quadro seria chamado de abortamento de repetição. A esterelidade, na maioria das vezes , é significa a incapacidade definitiva de engravidar. Entretanto, com as técnicas disponíveis, incluindo aquelas que envolvem uma terceira pessoa (doação de óvulos e espermatozóides e útero de substituição), não se pode afirmar que um determinado casal não tenha possibilidades de tratamento.

A infertilidade está aumentando?

Com toda certeza., cerca de 10 a 15% dos casais não conseguem uma gravidez num prazo adequado e procuram ajuda médica, sendo considerados inférteis. Talvez a razão mais importante que explique o aumento desta incidência tenha sido a mudança no papel social da mulher e nas suas aspirações. A mulher, há não muito tempo atrás, se casava e engravidava muito jovem, tinha vários filhos e só a eles se dedicava. Estava em pleno processo reprodutivo no momento em que a natureza a deixava mais preparada para a gravidez e mais fértil. O intervalo entre os filhos era determinado pelos períodos de amamentação. Hoje a mulher inicia a vida sexual cedo e tem acesso a métodos anticoncepcionais eficazes. Casa-se mais tarde, estuda, trabalha, participa do orçamento doméstico, adiando sua gravidez para um período de maior estabilidade profissional e financeira. Via de regra, salvo descuidos que muitas vezes levam à gravidez na adolescência, com consequências muitas vezes dramáticas, a primeira gravidez é adiada, com muita frequência para depois dos 30 anos. Muitas deixam para engravidar após os 35 ans. Isto já ocorre em uma para cada cinco mulheres nos EUA. Também não é incomum mulheres procurarem ajuda para engravidar após os 40 anos, tanto para uma primeira gravidez ou mesmo para uma nova gestação em um novo casamento ou relacionamento.

A fertilidade da mulher é afetada de forma inexorável pela sua idade. Como exemplo, a infertildade pula de 15% aos 30 anos para 28% aos 35. A principal causa vem da formação de seus gametas. Os óvulos, ou mais corretamente dizendo, os oócitos das mulheres que serão a origem da gravidez futura, são todos formados ainda dentro do útero materno, ao final da primeira metade da gravidez. A partir daí os milhões de folículos, que são pequenas estruturas com células ovarianas envolvendo um oócito, vão entrando progressivamente em um processo de crescimento inicial, seguido de atresia ou degeneração, processo este que independe da puberdade, ovulação, gravidez ou uso de métodos anticoncepcionais. Em torno dos 50 anos, a mulher praticamente não tem óvulos nem folículos funcionantes. Devido a este mesmo mecanismo e pela idade dos óvulos ainda presentes, a fertilidade diminui com a idade, lentamente após os 30 anos e de forma um pouco mais acelerada após os 35 anos. Após os 40 anos já existe uma queda drástica da fertilidade, sendo que após os 45 anos, as chances de engravidar já são muito remotas.

Além de problemas ovulares, o adiamento na concepção e também o aumento do tempo entre o início da vida sexual e a concepção aumentam as chances da mulher ser exposta a agentes infecciosos que podem levar a infecções nas trompas uterinas. Também passam a ser mais frequentes a endometriose , a miomatose uterina, as alterações endócrinas e mesmo outros fatores consequentes à exposicão a agentes medicamentosos ou ambientais. Nos homens, a fertilidade se altera menos com a idade, mas podem ocorrer doenças ou a ação de outros agentes tais como drogas que poderiam alterar a produção ou a secreção de espermatozóides, além do aumento da incidência de disfunções sexuais.

Parte desse aumento da procura pelo tratamento da infertilidade deve-se também a uma grande exposição na mídia dos avanços dramáticos ocorridos com as técnicas de fertilização assistida nos últimos 20 anos, desde o nascimento na inglesa Louise Brown in 1978. Ao lado dos benefícios destes relatos, houve um lado negativo que foi a criação de expectativas exageradas, sugerindo que a medicina poderia resolver de forma rápida, simples e altamente eficaz qualquer problema de infertilidade.

Quando um casal é infertil?

Em comparação com outros mamíferos, a espécie humana não é muito fértil. Enquanto que em alguns mamíferos a taxa de concepção por ciclo pode atingir 80% ou mais, um casal que abandona os métodos anticoncepcionais para tentar uma gravidez terá 20 a 25% de chance de consegui-la no primeiro mês. Esta probabilidade chega a 55% em 3 meses e a cerca de 70% após 6 meses. Em um ano, nove entre dez casais já terão conseguido engravidar. Os restantes seriam considerados inférteis e estaria justificada a investigação. Evidentemente, quando existem anormalidades óbvias ou já identificadas, o tratamento pode começar mais cedo. Também começamos a avaliar o casal antes de um ano quando a mulher tem mais de 35 anos, pois um longo tempo de espera poderia repercutir nos resultados futuros do tratamento. Devemos lembrar também que cerca de 15% das gestações terminam em abortamento espontânea. Este número passa a ser mais alto quando se faz o diagnóstico de gravidez muito cedo, através de dosagem de hCG no sangue logo após ou até mesmo antes do atraso menstrual. Muitas mulheres não saberiam que estiveram grávidas, se não tivessem feito o exame; teriam apenas 1 ou 2 dias de atraso menstrual. São as chamadas " gestações bioquímicas".

Para se ter idéia do que seria a fertilidade natural de um casal, os pesquisadores procuram dados antigos ou atuais de comunidades que não fazem ou faziam qualquer tipo de anticoncepção. O exemplo mais citado é o estudo feito na década de 50 em uma comunidade religiosa de imigrantes europeus, no estado da Dakota do Sul, nos EUA. Nesta comunidade, os casamentos são estáveis e monogâmicos e a fertilidade é valorizada, não sendo feita qualquer contracepção. O único fato contra a fertilidde é o casamento relativamente tardio, em torno de 22 anos para as mulheres. As mulheres têm em média dez gravidezes. A infertilidade atinge apenas 2,4% dos casias, aumentando com a idade, sendo que a última gravidez ocorre, em média, aos 41 anos. Os partos ocorrem a cada 2 anos. Este intervalo se deve ao período de cerca de 6 meses de amamentação sem menstruação, a mais 3 meses ainda sem ovulação e uma média de 6 meses mais para se conseguir uma nova gravidez. Baseando-se nestes dados, pode-se extrapolar que em uma sociedade onde o casameno ocorresse mais cedo, a lactação fosse curta e não houvesse declínio da frequência de coito, um casal teria em média 15 filhos.

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