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São Paulo, quarta-feira, 21 de julho de 2004
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CIÊNCIA SOB AMEAÇA
É reconfortante saber que o ministro da Ciência
e Tecnologia, Eduardo Campos, defende que o país autorize
pesquisas com células-tronco embrionárias, a
chamada clonagem terapêutica. A matéria será
disciplinada pela Lei de Biossegurança, que tramita
no Senado. Na versão do projeto que saiu da Câmara,
por força dos lobbies evangélico e católico,
esse tipo de investigação foi, para efeitos
práticos, proibido.
A clonagem terapêutica é uma das principais promessas
da ciência para o tratamento de doenças como
diabetes e mal de Parkinson, além de trazer a perspectiva
de que, um dia, laboratórios possam desenvolver órgãos
para transplantes.
O princípio geral é o de que células-tronco
embrionárias conservam a capacidade de converter-se
em qualquer tipo de tecido, de pele a ossos. A objeção
religiosa é que, para obter as células-tronco,
é necessário destruir embriões quando
estão na fase de blastocistos, um emaranhado de cerca
de uma centena de células.
Já existem milhares de embriões nessas condições
em clínicas de fertilidade. Eles serão destruídos
de qualquer forma, pois são sobras de processos de
fertilização "in vitro" ou não
apresentam qualidade para dar lugar a uma gravidez.
A clonagem terapêutica, é certo, desempenhará
um papel central na investigação médica
nos próximos anos. Privar os cientistas brasileiros
de participar de um dos principais veios da pesquisa é
condená-los ao atraso. Quem faz objeções
morais à destruição de embriões
que nunca terão a chance de gerar uma vida está
absolutamente livre para jamais utilizar-se das terapias que
a clonagem terapêutica possa produzir.
Infelizmente, há razões para temer que o bom
senso demonstrado pelo ministro Eduardo Campos não
seja uma unanimidade no governo, que quer a lei de Biossegurança
aprovada a toque de caixa para liberar o plantio da soja transgênica
e, ao que parece, prefere não se indispor com as bancadas
evangélica e católica.
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