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A alma e o ser
No que diz respeito à pesquisa com células-tronco
embrionárias --a grande promessa da medicina para a
cura de várias moléstias degenerativas--, o
substitutivo da Lei de Biossegurança aprovado na semana
passada pelo Senado Federal é menos ruim do que o projeto
que veio da Câmara, mas ainda está bastante longe
do ideal. Se a proposta dos senadores não chega a liberar
a clonagem de embriões humanos para fins terapêuticos,
como seria desejável, ela pelo menos não proíbe
toda e qualquer pesquisa com as células-tronco embrionárias,
que conservam a capacidade de converter-se em qualquer tipo
de tecido, de pele a ossos.
Lamentavelmente, porém, há dúvidas de
que até esse tímido avanço sobreviva
à nova passagem do projeto pela Câmara, onde
é mais forte o lobby religioso.
O que os senadores fizeram é o mínimo dos mínimos:
autorizaram a utilização, em investigações
científicas, dos milhares de embriões excedentes
de tratamentos de fertilização, que se encontram
congelados em clínicas. Descartados nas primeiras triagens
de qualidade e congelados já há anos, eles já
não se prestam a ser implantados num útero com
vistas a produzir uma gravidez. Ou esses blastocistos são
usados em pesquisas, com a finalidade razoavelmente nobre
de salvar vidas, ou são destruídos de modo clandestino,
ou ficam congelados indefinidamente.
É paradoxal que seja em nome da preservação
da vida que católicos e protestantes se oponham com
tanta veemência a investigações que buscam
a cura para moléstias degenerativas que têm o
péssimo hábito de matar, como diabetes, alguns
tipos de câncer e até coronariopatias, as grandes
genocidas dos dias de hoje. É claro que nem todos os
religiosos ficaram loucos. Eles são contrários
a essas pesquisas porque elas implicam a destruição
do embrião, que, para eles, já é uma
vida tão boa quanto a de um bebê nascido ou a
do papa. Para quem considera que a vida começa na concepção,
que é no instante em que o espermatozóide penetra
a parede do óvulo que surge a alma definidora da condição
humana, o aborto é de fato uma forma de assassinato.
O problema desse ponto de vista é que ele não
resiste nem a uma rápida análise biológica.
A atividade cerebral humana, que é o que mais perto
chega da noção de alma, emerge gradualmente
ao longo das 40 semanas e semanas de gestação
e segue se desenvolvendo após o nascimento.
Mesmo o instante da concepção não é
exatamente um "instante". Entre a penetração
do espermatozóide no óvulo e a fusão
genética dos gametas ocorre um intervalo de 24 a 48
horas. Será que a alma leva todo esse tempo para ser
soprada no novo ser? Pior, se assumimos todas as conseqüências
dessa noção, mulheres que usam DIU ou tomam
a pílula do dia seguinte deveriam ser processadas como
assassinas, pois esses métodos contraceptivos impedem
que o concepto --já com alma-- se implante no útero.
(Sei que a Igreja Católica de fato condena toda forma
"não-natural" de prevenção
da gravidez, mas a maioria dos protestantes não vai
tão longe).
Uma preocupação mais teológica do que
biológica é a que diz respeito às almas
dos 2/3 a 3/4 dos óvulos fecundados que jamais se fixam
no útero, resultando em abortos espontâneos.
Como a "morte" vem após a concepção,
a alma já estava lá. Para onde vai esse número
tão grande de espíritos, superior mesmo ao de
toda a população que já pisou sobre a
Terra ao longo da história? Como a maioria das doutrinas
cristãs rejeita a metempsicose, temos de produzir um
limbo várias vezes maior do que o inferno e o paraíso.
Sei que não nos é dado conhecer os planos de
Deus, mas parece meio estranho sacrificar a maioria das almas
imortais antes mesmo de elas nascerem.
Também representa um desafio lógico o fenômeno
da gemelaridade. Gêmeos monozigóticos (idênticos)
se formam entre 1 e 14 dias depois da fertilização,
quando o concepto sofre um desenvolvimento anormal dando lugar
a dois ou mais indivíduos com o mesmo material genético.
A alma, é claro, já estava lá. Ela também
se divide, ou outras almas surgem para animar os demais irmãos?
No segundo caso, de onde elas vêm? E, se gêmeos
partilharem a mesma alma, como fica o livre-arbítrio?
Se um irmão pecar, levará o outro --eventualmente
bom-- ao inferno, visto que é a parte imaterial que
guarda o dom da vida eterna?
Decididamente, é difícil, para não dizer
impossível, conciliar a noção de alma
com o que sabemos de biologia. Pessoalmente, fico com a biologia,
mas é claro que cada um é livre para acreditar
no que bem entender.
Nosso problema então já não é
o de encontrar um critério biológico para determinar
o instante em que a vida começa --tarefa sempre fadada
a produzir novos paradoxos parecidos com os que eu pincelei
acima--, mas apenas encontrar uma fórmula democraticamente
aceitável para lidar com o problema das células-tronco,
que, no fundo, não passa de uma discussão sobre
o aborto, só que enfeitada pela promessa de curas milagrosas.
(Aqui, devo registrar que alguns cientistas, no legítimo
afã de conquistar simpatias para sua causa, vêm
exagerando um pouco na propaganda. Grupos organizados de pacientes
de moléstias crônicas parecem acreditar que tratamentos
para as mais diversas doenças baseados em células-tronco
estão ali na esquina, apenas esperando a autorização
do Congresso para ser descobertos. Infelizmente, não
é bem assim. Por ora, tudo não passa de promessas,
que poderão ou não materializar-se, e nos mais
variados prazos. Parece mais realista imaginar que serão
nossos netos --e não nós nem nossos filhos--
que poderão se beneficiar largamente da clonagem terapêutica).
Voltando à democracia, devo, na companhia de Winston
Churchill, lembrar que ela não é o regime ideal,
mas apenas o menos imperfeito que a humanidade até
aqui experimentou. Principalmente numa democracia, temos de
tolerar coisas de que não gostamos. Ainda que o aborto
e a obtenção de células-tronco embrionárias
configurassem assassinato --interpretação de
que não partilho-- existem vários casos de homicídio
legalmente aceitos. É o que ocorre, por exemplo, com
a legítima defesa. Mas as criancinhas e os embriões,
diferentemente de ladrões e invasores de propriedade,
são inocentes, argumentarão alguns. É
verdade. Mas o soldado inimigo que nossos valorosos militares
se aprestam a matar --e com autorização legal--
numa guerra tampouco pode ser considerado responsável
pelo conflito. De algum modo, ele também é um
inocente --e não apenas o matamos como ainda nos regozijamos
com isso, dando medalhas a quem lhe tenha tirado a vida.
A verdade é que impossível retirar o arbitrário
de qualquer sistema legal. A única forma de ser objetivo
nesta matéria é aceitar que o Direito é
positivo e não natural, e que somos livres para definir
a partir de quando o nascituro ganha direito à vida.
Em minha modesta opinião, o único critério
verdadeiramente universal no que diz respeito à regulação
dos costumes é o da maior liberdade possível.
Isso significa que só devemos proibir aqueles atos
que geram dano físico ou psicológico objetivo
e direto a terceiros. Assim, precisamos renunciar definitivamente
a tentar controlar coisas como relações sexuais
consentidas entre adultos ou o consumo voluntário de
substâncias inebriantes. De modo análogo, cabe
à mulher decidir se vai ou não gerar um filho.
Se ela tiver bom senso, vai tomar as devidas precauções
antes de engravidar. Se não tiver, ainda assim ela
deve ter, creio, o direito de optar por um aborto, da mesma
forma que damos a um soldado o direito de matar um inimigo
inocente. E, se aceitamos que um feto no primeiro trimestre
da gravidez pode ser sacrificado apenas porque a mãe
não deseja esse filho, com muito maior razão
devemos aceitar a destruição de blastocistos
de poucos dias com o objetivo de salvar vidas. (Essa discussão
das células-tronco, aliás, fica ridícula
no cenário jurídico norte-americano, no qual
o aborto é reconhecido como um direito constitucional
da mulher).
No fundo, o critério da maior tolerância possível
interessa muito aos próprios religiosos. Afinal, é
ele que garante a liberdade do indivíduo de rezar para
o seu Deus em contextos em que a sua fé seja minoritária.
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