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Quarta-feira, 6 de outubro de 2004 |
Pioneira da proveta faz 20 anos amanhã
O
aniversário de uma jovem de 20 anos, amanhã,
no Água Verde, representa uma grande vitória
da ciência no país. O nascimento de Ana Paula
Caldeira aconteceu contra todas as probabilidades. Sua mãe,
que já tinha cinco outros filhos, havia sofrido uma
peronite pós-cesárea e estava impossibilitada
de engravidar novamente. O único caminho seria uma
fertilização em laboratório. Algo praticamente
impensável para a época. O primeiro bebê
de proveta do mundo, Louise Brown, havia assombrado o mundo
apenas seis anos antes. No Brasil, a experiência era
estudada, mas não tinha nenhum caso de sucesso.
Dona Ilza, porém, estava determinada a ter um filho.
Seu segundo marido queria ter um bebê com ela, e o casal
insistiu o quanto pôde. A solução chegou
quando os dois encontraram um médico de São
Paulo, Mílton Nakamura, que fazia experiência
sobre o tema há 13 anos. "Na época, eu
não questionei nada. Achava que já havia experiências
como a minha, mas que não eram divulgadas. Só
quando estava com dois meses de gravidez o doutor Nakamura
me contou que a minha era a primeira gravidez que tinha vingado",
relembra.
A apreensão causada pelo pioneirismo daquela gravidez
não impediu Ilza de continuar a trabalhar até
dois dias antes do parto. Tampouco, depois do nascimento,
Ana Paula teve um tratamento diferente. "O desenvolvimento
dela foi normal. A gente só se lembra do fato quando
a imprensa vem nos procurar", confessa sua mãe.
Hoje, a estudante de nutrição, nascida em São
José dos Pinhais, encara o fato com naturalidade. "Se
for necessário, eu também farei a mesma coisa
para ter filhos", admite. Seu cotidiano nunca foi diferente
de outras crianças, e atualmente, Ana se mostra acostumada
com o eventual interesse das pessoas em saber mais a seu respeito.
Novas técnicas
Segundo Arnaldo Cambiaghi, especialista em reprodução
humana do Instituto Paulista de Ginecologia e Obstetrícia
(IPGO), o Brasil conta atualmente com cerca de 300 nascimentos
resultantes de fertilização in vitro, todo mês,
com uma série de avanços que na época
do nascimento de Ana Paula, ainda não eram possíveis.
"Antigamente a chance da experiência dar certo
era de 15%. Hoje, conseguimos fazer a fertilização
em mulheres com menos de 35 anos, com 50% de sucesso",
explica.
A experiência é relativamente simples. Os óvulos
são retirados da mulher durante uma ultrassonografia,
com uma agulha. Há duas possibilidades de fertilização:
a natural, onde espermatozóides e óvulos são
colocados em contato para a fecundação, e a
chamada injeção intracitoplasmática,
em que o espermatozóide é colocado dentro do
óvulo. Em seguida, cerca de quatro embriões
são introduzidos no útero da paciente, onde
depois de uma espera de aproximadamente onze dias, o resultado
pode ser conhecido.
Os estudos na área são constantes, e de acordo
com Cambiaghi, o empenho dos pesquisadores é para,
entre outras coisas, evitar a gravidez múltipla, comum
pela necessidade de se usar mais de um embrião.
Para Ilze e Ana Paula, essa experiência significa mais
do que um avanço científico. "Nada é
por acaso. A ciência dá chance a quem não
pode ter filhos, mas no fundo, é Deus quem decide",
afirma a estudante. Sua mãe relembra que uma criança
concebida numa proveta é tudo, menos indesejada.
Lívia Araújo
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