ARTIGO - SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL
Edição Nº 35 - abril de 2005
Células-tronco: expectativas
e realidade
Lygia V. Pereira
Há um longo caminho a percorrer antes que sejam feitos
testes com CTs embrionárias em humanos
A luta pela aprovação do Projeto de Lei de
Biossegurança, liberando o uso de embriões humanos
para a extração de células-tronco (CTs)
embrionárias, gerou enorme expectativa na população,
que se pergunta: após a aprovação, quantos
pacientes sairão das filas de transplantes? Na verdade,
nenhum hoje, nenhum até mesmo nos próximos anos,
mas provavelmente muitos a longo prazo, agora que podemos
trabalhar com essas células no Brasil. Com a poeira
do sensacionalismo baixada, quais são as reais possibilidades
das CTs embrionárias?
As CTs embrionárias são o tipo mais versátil
até hoje identificado em mamíferos, possuindo
a formidável capacidade de dar origem a todos os tecidos
do corpo. Desde a década de 1980 faz-se pesquisas com
as CTs em-brionárias de camundongos. Descobrimos como
transformá-las no laboratório em células
da medula óssea, do músculo cardíaco,
em neurônios, entre outras. E quando transplantadas
em animais doentes, as células derivadas foram capazes
de aliviar os sintomas de diversas doenças - leucemia,
doença de Parkinson até paralisia causada por
trauma da medula espinhal.
As primeiras linhagens de CTs embrionárias humanas
surgiram em 1998, e junto com elas a enorme expectativa de
seu uso terapêutico. Porém, antes de começarmos
testes clínicos injetando CTs embrionárias em
seres humanos, temos algumas questões fundamentais
que devem ser resolvidas.
Questões de segurança - quando injetadas em
camundongos, essas células podem formar tumores. Antes
de testá-las em pacientes, temos que primeiro aprender
a controlar sua diferenciação para que elas
gerem somente o tecido que nos interessa, e não tumores.
Questões de compatibilidade entre as CTs embrionárias
e o paciente, para que elas não sejam rejeitadas após
o transplante. Uma solução para isso seria criar,
com as técnicas de clonagem, CTs embrionárias
geneticamente idênticas ao paciente, que poderiam então
gerar tecidos 100% compatíveis com ele - a chamada
clonagem terapêutica, realizada em humanos na Coréia
do Sul em 2004.
Porém, a clonagem terapêutica não poderia
ser utilizada em indivíduos com doenças genéticas.
As CTs embrionárias geradas a partir das células
desses pacientes também carregariam a doença,
e por isso não seriam capazes de gerar tecidos sadios
para transplante. Assim, para o tratamento de doenças
genéticas com CTs - sejam embrionárias, da medula
ou do sangue do cordão - a melhor alternativa é
conseguir um doador aparentado, que tem maior chance de ser
compatível com o paciente.
E no Brasil, como andam as pesquisas com as CTs em-brionárias?
Em 1999, nosso grupo estabeleceu as primeiras linhagens de
camundongo totalmente "made in Brasil", implantando
a tecnologia no país e a disponibilizando para outros
pesquisadores.
Quanto à clonagem terapêutica, a colaboração
entre grupos que fazem clonagem animal e aqueles que trabalham
com CTs em-brionárias poderia tornar esta prática
uma realidade no país. Porém, o Projeto de Biossegurança
proíbe a clonagem terapêutica. Não tem
problema, a conquista do direito de utilizar embriões
congelados para pesquisa foi um primeiro e importantíssimo
passo, e em uma segunda rodada a clonagem terapêutica
pode ser renegociada. E enquanto não podemos utilizá-las
como agente terapêutico, temos muito a aprender com
as CTs embrionárias, sobre sua capacidade de se transformar
em qualquer tecido - esses conhecimentos básicos trarão
a longo prazo grandes benefícios à saúde
humana.
Apesar de o uso terapêutico das CTs embrionárias
ainda estar longe de se tornar uma realidade, para que isso
um dia aconteça precisamos pesquisar - e foi este direito
que adquirimos com a aprovação do projeto, passando
de meros observadores do desenvol-vimento de uma área
promissora da medicina para jogadores muito competitivos.
Afinal de contas, as pesquisas com CTs de medula e de cordão
umbilical no Brasil são motivo de orgulho nacional.
Agora poderemos fazer bonito com as CTs embrionárias.
Lygia V. Pereira é livre-docente e chefe do Laboratório
de Genética Molecular do Departamento de Biologia,
Instituto de Biociências, USP.
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