| Cientistas da Coréia do Sul anunciam método
eficaz de clonagem de embriões humanos
Clonagem terapêutica potencializa a produção
das células-tronco
Gina Kolata*
Em Nova York
Pesquisadores sul-coreanos anunciarão nesta sexta-feira
(20/05) que desenvolveram uma receita altamente eficiente
para produção de embriões humanos por
clonagem, para posterior extração de suas células-tronco.
Escrevendo na revista "Science", os pesquisadores,
liderados pelo dr. Woo Suk-Hwang e pelo dr. Shin Yong-Moon
da Universidade Nacional de Seul, disseram que usaram seu
método para produzir 11 linhagens de células-tronco
humanas geneticamente iguais às de pacientes cujas
idades variavam de 2 até 56 anos.
O método, chamado clonagem terapêutica, é
uma das grandes esperanças do campo da célula-tronco.
Ela produz células-tronco, células universais
que são extraídas de embriões, matando
os embriões no processo, e que, na teoria, podem ser
orientadas a se desenvolverem em qualquer tipo de célula
do corpo.
Como as células-tronco vêm de embriões
que são clones dos indivíduos, a combinação
genética delas é exata. Os cientistas querem
obter tais células-tronco de pacientes com certas desordens
e males para estudar a origem das doenças e desenvolver
células substitutas que seriam idênticas àquelas
que o paciente perdeu em uma doença como o mal de Parkinson.
Hwang disse que não tem intenção de
usar o método para produzir bebês que sejam clones.
"Nossa proposta se limita a encontrar uma forma de curar
doenças", disse ele. "Esta é nossa
proposta e nossa meta de pesquisa."
Previamente, o mesmo grupo produziu uma única linhagem
de células-tronco de um embrião clonado, mas
o processo foi tão oneroso que muitos cientistas disseram
que não valia a pena repeti-lo, e alguns duvidaram
que o trabalho dos sul-coreanos estava até mesmo correto.
Mas as coisas mudaram.
A nova descoberta animou os pesquisadores que queriam usar
tais células-tronco para estudar doenças, mas
que achavam que ainda seriam necessários anos, quanto
muito, antes de se tornar prático obtê-las.
"É um tremendo avanço", disse o dr.
Leonard Zon, um pesquisador de células-tronco da Escola
de Medicina de Harvard e presidente da Sociedade Internacional
para Pesquisa de Células-Tronco, que não esteve
envolvido na pesquisa.
Mas o relatório gerou preocupações entre
outros, que disseram que foi um passo ladeira perigosa abaixo
que leva à clonagem de bebês. Richard Doerflinger,
diretor de atividades pró-vida da Conferência
dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, disse: "Até
agora, as pessoas estavam começando a se perguntar
se a clonagem humana para algum propósito era viável.
Este desenvolvimento a torna viável o suficiente para
se tornar um perigo real e imediato".
O estudo coreano influenciará o delicado debate político
em torno da pesquisa de célula-tronco embrionária,
que está em andamento no Capitólio.
A Câmara deverá votar já no início
da próxima semana uma medida que expandirá o
financiamento federal para estudos de células-tronco
embrionárias. A medida, que tem provocado profundas
divisões entre os republicanos, não aborda a
clonagem terapêutica.
Mas um segundo projeto de lei, apresentado pelo senador Orrin
Hatch, republicano de Utah, permitiria aos contribuintes financiar
estudos de clonagem terapêutica, ao mesmo tempo em que
proíbe a clonagem para reprodução.
Em seu trabalho, os pesquisadores sul-coreanos produziram
células-tronco que são cópias perfeitas
para 9 entre 11 pacientes, incluindo oito adultos com lesões
na medula espinhal e três crianças --um menino
de 10 anos com lesão na medula espinhal, uma menina
de 6 anos com diabete, e um menino de 2 anos com hipogamaglobulinemia
congênita, uma desordem genética do sistema imunológico.
Zon alertou que "será necessário muito
trabalho" antes que as células-tronco possam cumprir
suas promessas na medicina, mas ele disse que os novos resultados
deixarão os cientistas significativamente mais próximos
de suas metas.
"Será a ponta de lança do esforço,
sem dúvida", disse Zon.
Hwang disse que foi soterrado por pedidos de pesquisadores
que desejam visitar e estudar seus métodos, incluindo
o dr. Ian Wilmut, o pesquisador na Escócia que criou
o primeiro mamífero clonado, uma ovelha chamada Dolly,
em 1996, que deixou os cientistas atônitos, pois achavam
que a clonagem era biologicamente impossível.
Wilmut visitou o laboratório em Seul, e nesta semana
Hwang foi até o laboratório de Wilmut no Instituto
Roslin, em Edimburgo, para ajudá-lo em sua busca para
produzir embriões humanos por clonagem para extração
de suas células-tronco.
Outros também estão tentando. Na Inglaterra,
o Centro Internacional para a Vida, em Newcastle upon Tyne,
anunciou que produziu um embrião humano por clonagem,
apesar de não ter dito se extraiu suas células-tronco
ou se passaram pelos muitos passos detalhados para provar
que eram células-tronco e que eram de um clone, como
fizeram os sul-coreanos.
Até agora, os cientistas vinham estudando as células-tronco
embrionárias humanas extraindo-as de embriões
criados para tal propósito. Isto não envolvia
a clonagem de células de pacientes específicos.
Elas também obtiveram células-tronco de embriões
criados em clínicas de fertilidade e doados pelos casais
que não mais precisavam deles. Além disso, os
cientistas estão estudando células-tronco de
ratos, trabalhando na difícil tarefa de dirigir o desenvolvimento
das células em tipos específicos de tecido.
Mas os pesquisadores queriam embriões que fossem pares
genéticos dos pacientes. A única forma de fazer
isto seria usando embriões que fossem clones dos pacientes,
e a clonagem humana parecia praticamente impossível.
Para produzir um clone, os cientistas inserem o material
genético de uma célula do paciente em um óvulo
não fertilizado de outra pessoa, cujo material genético
foi removido.
Os genes da célula do paciente assumem o controle,
direcionando o óvulo para se dividir e se transformar
em um embrião que é geneticamente idêntico
ao paciente, em vez da doadora do óvulo. Cerca de cinco
dias depois, quando o embrião clonado contém
cerca de 100 células e possui cerca de 0,08 polegada
de diâmetro, ele muda sua forma, parecendo uma bola
de células envoltas em uma esfera. Tal bola de células,
quando removida e cultivada no laboratório, se transforma
nas células-tronco embrionárias.
Mas tal processo fracassa mais do que é bem-sucedido
e, nos seres humanos, parece fracassar todas as vezes. Em
seu relatório anterior, publicado em fevereiro passado,
Hwang e Moon usaram 248 óvulos humanos para produzir
uma única linhagem de células-tronco embrionárias
--um grupo de células que vem de uma célula
embrionária e que pode ser cultivado em laboratório
em placas de Petri.
Mas desta vez, com um punhado de avanços técnicos
que envolveram em grande parte métodos de crescimento
de células e abertura de embriões, eles usaram
em média 17 óvulos por linhagem de célula-tronco
e podiam quase garantir o sucesso com os óvulos de
apenas uma mulher, obtidos em um único mês.
Não importava se o paciente cujas células estavam
sendo clonadas era jovem ou de meia-idade, do sexo masculino
ou feminino, doente ou saudável --o processo funcionava.
"Você quase não tem motivos para não
fazê-lo", disse o dr. Davor Solter, diretor do
Instituto Max Planck de Imunobiologia, em Freiberg, Alemanha.
Solter acrescentou que parece mais eficiente clonar e obter
células-tronco humanas do que fazer a mesma experiência
em animais, apesar de ninguém saber por quê.
Sete Estados proíbem qualquer tipo de clonagem humana,
e 11 possuem leis que impedem a pesquisa de célula-tronco
embrionária, disse Lori B. Andrews, uma professora
de Direito da Faculdade Chicago-Kent de Direito.
Recursos federais se restringem ao uso de linhagens de células-tronco
aprovadas pelo governo Bush em 2001. Mas onde tal trabalho
é legal, um número crescente de cientistas,
incluindo Zon, diz contar com financiamento privado e que
planeja seguir em frente usando a clonagem para produzir células-tronco.
O dr. John Gearhart, um pesquisador de célula-tronco
da Universidade Johns Hopkins, disse que o novo trabalho fornecerá
o impulso. "Eu acho que veremos mais pessoas no jogo",
disse ele.
Mas nem todos estão empolgados.
O dr. Leon Kass, presidente do Conselho de Bioética
do Presidente, comentou em uma mensagem por e-mail que "seja
qual for seu mérito técnico, esta pesquisa é
moralmente perturbadora: ela cria embriões humanos
apenas para pesquisa, facilita muito a produção
de bebês clonados e explora as mulheres como doadoras
de óvulos sem que seja para seu benefício".
O governo sul-coreano, que pagou pelo novo estudo, transformou
em ofensa criminal o implante de um embrião clonado
no útero de uma mulher, disse Hwang. "Isto deve
ser banido em todo o mundo", ele acrescentou.
Os participantes do estudo sul-coreano queriam apenas o avanço
da medicina, disse Hwang. Entre eles estavam 18 mulheres que
forneceram óvulos, incluindo uma das pacientes do estudo
que forneceu seus próprios óvulos.
Os cientistas sul-coreanos trabalharam arduamente, disse
o dr. Gerald Schatten, da Escola de Medicina da Universidade
de Pittsburgh, que visitou o laboratório deles e ajudou
os cientistas, cujo inglês é limitado, a escrever
o relatório.
"Eles trabalharam 365 dias por ano, exceto no ano bissexto,
no qual que trabalharam 366 dias", disse Schatten. "Eles
realizavam reuniões de laboratório às
6h30 toda manhã exceto aos domingos, quando as realizavam
às 8h."
Poucos se aventurariam na arena da clonagem caso a ciência
não fosse muito promissora, disseram os pesquisadores.
É claro, disseram os pesquisadores, ainda resta muito
a fazer para transformar as células-tronco em terapias.
"Será necessário muito trabalho",
disse o dr. Ronald McKay, um pesquisador de células-tronco
dos Institutos Nacionais de Saúde. "Mas nós
queremos que isto funcione -não é uma teoria.
Meu julgamento técnico e profissional me diz que isto
é realmente importante."
Mas Kass disse que a clonagem e extração de
células-tronco de embriões não é
a única forma de realizar tal trabalho. Ele disse que
a maioria do Conselho de Bioética do Presidente pediu
uma moratória da clonagem para pesquisa, e disse que
o conselho sugeriu recentemente outras formas de obtenção
de células-tronco capazes de serem desenvolvidas nos
tipos de tecidos desejados e que combinariam com as próprias
células do paciente, "sem estas violações
e riscos morais".
As pesquisas de opinião apresentam resultados variados,
freqüentemente dependendo das palavras que são
usadas para descrever o trabalho. Em uma recente pesquisa
Gallup, apenas 38% dos pesquisados aprovaram a clonagem de
embriões para pesquisa.
Outra pesquisa, que usou o termo "transferência
nuclear da célula somática" em vez de "clonagem"
apresentou 72% de aprovação.
O trabalho de Hwang vai um passo além, usando "TNCS"
em vez de "transferência nuclear da célula
somática". A dra. Ruth Faden, diretora executiva
do centro de bioética da Johns Hopkins, disse que o
debate moral mudará caso as pesquisas de células-tronco
levem a novos tratamentos com benefícios dramáticos
para alguns pacientes. "Isto poderia realmente sacudir
as coisas", disse ela.
Mas o dr. Richard Land, presidente da comissão de
ética e liberdade religiosa da Convenção
Batista do Sul, disse que seu grupo não será
persuadido.
"Nós acreditamos que um embrião clonado
é um ser humano", disse ele. "Nós
não devemos ser o tipo de sociedade que mata nossos
menores seres humanos para buscar tratamento para seres humanos
maiores e mais velhos."
*Colaborou Sheryl Gay Stolberg, com reportagem, em Washington.
Tradução: George El Khouri Andolfato
The New York Time
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