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São Paulo, domingo, 12 de fevereiro de 2006

FOLHAcotidiano

ESCAMBO REPRODUTIVO

Medida é considerada antiética pelo Conselho Federal de Medicina; estabelecimentos pagam até R$ 1.500

Clínicas médicas trocam óvulo por check-up


Bruno Miranda/Folha Imagem

A gerente Érika Zanete Costa, 28, durante
procedimento cirúrgico para retirada de óvulos
que serão doados para mulher que fará tratamento

CLÁUDIA COLLUCCI
DA REPORTAGEM LOCAL

Jovens universitárias têm sido recrutadas por clínicas de reprodução para doar óvulos a mulheres acima de 40 anos com dificuldade de gravidez. Em troca, essas instituições afirmam que oferecem check-ups ginecológicos e métodos contraceptivos.
Porém, três mulheres relataram à Folha que receberam de R$ 800 a R$ 1.500, em dinheiro, pela "doação" dos óvulos. Elas pediram sigilo em relação aos nomes das clínicas -uma de São Paulo e outra de Minas Gerais- em razão de um compromisso firmado com as instituições. Procuradas pela reportagem, as clínicas negam a compra de gametas.
Apesar de inexistir lei que regulamente procedimentos de reprodução assistida no país, o CFM (Conselho Federal de Medicina) veta o comércio de óvulos e espermatozóides. A infração pode levar à perda do registro profissional.
Os EUA são o único país que considera legal o comércio de células reprodutivas. Páginas na internet oferecem, por até US$ 15 mil (R$ 32.400), óvulos de mulheres com as mais diversas características físicas e intelectuais.
Na doação de óvulos, a mulher recebe injeções de hormônio na barriga para estimular o ovário. A retirada é feita com uma agulha pela vagina, sob sedação. Há risco de hemorragia e reação alérgica.
Além de passarem por exames, as doadoras preenchem formulários com as características físicas (cor da pele, dos olhos, peso e altura), tipo sangüíneo e doenças que já teve. Algumas clínicas fazem o perfil psicológico e pedem fotos das mulheres quando bebês.
Na clínica do urologista Roger Abdelmassih, 30 universitárias, com idades entre 23 e 26 anos, estão inscritas como doadoras. Segundo o médico, as jovens doam em média dez óvulos a cada estimulação e, às vezes, repetem o procedimento. "São poucas as que aceitam uma segunda vez."
Segundo ele, as universitárias são abordadas por assistentes sociais que vão às faculdades e as convidam a avaliar a fertilidade. Na clínica, são informadas de que a análise dos óvulos complementa o check-up da saúde reprodutiva. "As que topam fazer a estimulação ovariana são convidadas a doar seus óvulos."
Além de saciar a curiosidade de saber se são férteis, Abdelmassih alega que as jovens doam por altruísmo. "Tem gente ainda assim, boas e solidárias, graças a Deus."
Na clínica Huntington, a mulher que precisa do óvulo paga o tratamento da doadora, em geral uma jovem que precisa da fertilização in vitro pois o marido é infértil. "Não existe doação altruísta", diz o médico Eduardo Motta, professor na Universidade Federal de São Paulo.
A doação compartilhada já teve parecer favorável no CRM (Conselho Regional de Medicina) do Distrito Federal, mas não é prevista na resolução do CFM que regula o tema no âmbito federal.
Roger Abdelmassih afirma que a idéia de procurar jovens doadoras ocorreu em razão do desconforto que sentia pedindo óvulos excedentes às clientes.
O ginecologista Selmo Geber, da clínica Origem, de Belo Horizonte (MG), diz que já aceitou "duas ou três" doações de mulheres já mães em troca de DIU e laqueadura. "Elas é que vieram até a clínica à procura de métodos contraceptivos, mas, como não podiam pagá-los, propuseram doar os óvulos."
Ele diz que, na sua clínica, a forma mais comum de obter óvulo é por "pareamento": a mulher que precisa do óvulo indica uma parente jovem disposta a fazer a doação a uma pessoa não conhecida. Outra paciente, preferencialmente de outra cidade, na mesma condição, faz o mesmo.

 


 

 

 
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