| Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2006, 22h30
Jornal O
TEMPO
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Clínicas
fazem comércio de óvulos
IGOR GUIMARÃES
A Associação de Ginecologistas e Obstetras de
Minas Gerais (Sogimig) divulgou ontem uma nota repudiando
o comércio de óvulos no Estado. A entidade informou
ter acesso a relatos de que mulheres têm sido recrutadas
por clínicas de reprodução assistida
para doar óvulos a outras mulheres com dificuldades
de engravidar.
Em troca, as doadoras recebem check-ups ginecológicos
grátis, métodos contraceptivos e, até
mesmo, dinheiro. A prática fere os artigos 43 e 75
do código de ética médica, que condenam
o comércio de óvulos.
De acordo com a Sogimig, o Conselho Federal de Medicina (CFM)
também é contra a doação com caráter
lucrativo ou comercial. A nota divulgada pela associação
foi motivada pela publicação de uma reportagem
no jornal “Folha de S.Paulo”, no último
dia 12.
Segundo o diário paulista, as doações
são feitas, principalmente, por jovens universitárias,
recrutadas no ambiente da faculdade por assistentes sociais
das clínicas de fertilização para a fecundação
de mulheres acima de 40 anos e com dificuldades de engravidar.
Três jovens disseram receber entre R$ 800 a R$ 1.500,
em dinheiro, pela “doação” dos óvulos.
À reportagem, pediram sigilo em relação
aos nomes das clínicas, uma de São Paulo e outra
de Minas Gerais.
“Não somos contra a doação de
óvulos, mas, sim, contra a venda, a comercialização”,
diz o presidente da Sogimig, João Pedro Junqueira.
O procedimento correto quanto à doação,
explica, ocorre quando há o altruísmo no ato,
ou seja, quando a receptora obtém o óvulo sem
precisar dar nada em troca à doadora.
Compartilhada
Outro procedimento questionável, segundo especialistas
em reprodução assistida, acontece na chamada
doação compartilhada.
Ela ocorre quando, depois de realizados exames de fertilização
e outros procedimentos médicos, a paciente doa parte
de seus óvulos para outra mulher, também com
problemas de infertilidade, mas que lhe custeará todo
ou parte do seu tratamento.
Juízes consideram a prática também um
comércio de células reprodutivas, mas há
especialistas que a consideram a única possibilidade
de a mulher se tornar mãe. Junqueira reafirma o posicionamento
da Sogimig e ressalta a necessidade de esclarecer a sociedade
sobre os riscos do tratamento.
Ao se submeter à fertilização in vitro,
a mulher recebe injeções de hormônio para
estimular o ovário e é sedada para a retirada
dos óvulos, o que é feito com uma agulha pela
vagina. Há risco de hemorragia e reação
alérgica.
“É preciso entender que essa paciente –
que vende os óvulos – está se submetendo
a um tratamento médico sem necessidade”, diz
o presidente da associação dos ginecologistas
mineiros.
Embora o código de ética médica condene
a comercialização de gametas, não existe
lei que regulamente procedimentos de reprodução
assistida no país. A infração, no entanto,
pode levar o profissional à perda do registro.
Os Estados Unidos são o único país que
considera legal o comércio de células reprodutivas.
Páginas na Internet oferecem, por até US$ 15
mil (cerca de R$ 32,4 mil), óvulos de mulheres com
as mais diversas características físicas e intelectuais.
“A Sogimig condena a prática por acreditar que
qualquer parte do corpo humano a ser doada – seja sangue,
órgãos ou óvulos – não pode
estar vinculada a pagamento em espécie. A ausência
de uma lei federal não é justificativa para
deixarmos de lutar pelos pressupostos éticos que devem
reger não apenas o exercício da medicina, mas
também as relações humanas”, conclui
a nota.
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