| Jornal Estado de Minas - Domingo, 09
de abril de 2006
ENTREVISTA
Reprodução assistida
João Pedro Junqueira
Caetano
Presidente da Sogimig faz balanço
sobre trabalho de especialistas brasileiros
Ellen Cristie

"De certa forma, casais que se beneficiaram
do desenvolvimento da ciência para engravidar, podem,
agora, retribuir altruisticamente e ajudar um grande número
de pessoas"
Autor do livro Infertilidade e concepção assistida
– Um guia para o casal e de vários capítulos
em livros médicos sobre ginecologia, João Pedro
Junqueira Caetano trabalha na área da reprodução
humana e fertilização in vitro desde 1989. Dez
anos depois, fundou a Clínica Pró-Criar em parceria
com o Hospital Mater Dei. Pós-graduado em infertilidade
humana e fertilização in vitro pelo Hospital
Antoine Béclère, da Universidade de Paris XI,
atualmente é presidente da Associação
de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig) e
integra a diretoria da Sociedade Brasileira de Reprodução
Humana (SBRH). Em entrevista ao Bem Viver, João Pedro
fala sobre a relação médico/paciente
e analisa o futuro das pesquisas sobre reprodução
assistida.
Até que idade a mulher pode engravidar sem
precisar recorrer às técnicas de reprodução?
É importante passar a mensagem de que a idade cobra
um preço muito caro da fertilidade da mulher. Infelizmente,
até a natureza é machista. A mulher nasce com
todos os óvulos dentro dos ovários e vai gastando
esses óvulos ao longo da vida, ao contrário
do homem, que produz novas populações de espermatozóides
a cada 74 dias. A partir da primeira menstruação,
a mulher disponibiliza 1 mil óvulos por mês e
somente um deles amadurece e ovula. Se essa paciente estiver
usando pílula ou estiver grávida, por exemplo,
ela continua a disponibilizar 1 mil óvulos, mas nenhum
ovula. Dessa forma, querendo ou não, ela gasta 1 mil
óvulos todo mês. A partir dos 35 anos, o “cesto”
de óvulos começa a ficar mais vazio e é
a partir daí que a fertilidade da mulher começa
a diminuir. Dois marcos são importantes como queda
da fertilidade: 38 e 42 anos. A chance de uma gravidez espontânea
diminui bastante com a idade e a necessidade de uma técnica
de reprodução assistida é bem maior.
Não quer dizer que a mulher com mais de 38 ou 40 anos
não possa engravidar espontaneamente, mas o número
daquelas que vão necessitar de ajuda é bem maior
do que aquelas que têm menos de 35 anos.
Quais regras regem a reprodução assistida
no Brasil?
Em 1992, o Conselho Federal de Medicina (CFM) elaborou um
conjunto de diretrizes para orientar os médicos que
realizam técnicas de reprodução assistida:
a Resolução Nº 1.358/92. É importante
frisar que essas normas não têm caráter
de lei. São, sim, orientações éticas
que contam com o apoio do órgão máximo
representativo dos médicos, que é o CFM. Em
fevereiro, foi publicada no Diário Oficial da União
uma regulamentação da Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa), a RDC nº
33, que aprova regulamento técnico para o funcionamento
de banco de células e tecidos germinativos. Essa resolução
regulamenta a prática da fertilização
in vitro no Brasil seu não cumprimento implica penalidades
previstas pela lei.
Como as pesquisas sobre célula-tronco podem
contribuir nessa área?
Acredito que a nova fronteira da medicina são as células-tronco
embrionárias humanas. Essas células têm
o potencial de se transformar em quaisquer tecidos do corpo
humano. A partir de 2005, o Brasil se juntou ao pequeno grupo
de dez países que permitem a pesquisa com células
embrionárias humanas. É importante não
confundir com células de cordão umbilical ou
da medula óssea, que também contêm células-tronco,
mas com capacidade bem menor em se transformar em outros tecidos,
quando comparadas com as células embrionárias.
Os casais que têm embriões congelados, e não
desejam usá-los mais, têm agora a opção
de doarem esses embriões para a pesquisa de células-tronco.
De certa forma, aqueles casais que se beneficiaram do desenvolvimento
da ciência para poderem engravidar, podem, agora, retribuir
altruisticamente e ajudar um grande número de pessoas.
Quais são as técnicas de fertilização
e quais são as mais usadas?
A principal técnica é a fertilização
in vitro (FIV) ou bebê de proveta. Todas as técnicas
de reprodução assistida são derivadas
dela. Aí temos: FIV com micromanipulação
de espermatozóides (ICSI), FIV com doação
de óvulos, FIV com útero de substituição
(erradamente chamada de barriga de aluguel), FIV com congelamento
de embriões ou óvulos. Esses tratamentos são
considerados de alta complexidade. Antes de chegar à
fertilização in vitro, existem técnicas
mais simples e menos complexas, tais com a indução
da ovulação e mesmo a inseminação
artificial.
Como os médicos devem lidar com pacientes
que necessitam de tratamento? E os familiares?
O mais importante é tentar não perder tempo
com o tratamento. Explico melhor: antigamente, era comum casais
passarem de 5 a 10 anos tentando engravidar e, ao longo desse
tempo, as energias e esperanças desapareciam. Com o
advento e certa popularização da fertilização
in vitro, não é mais usual um casal demorar
de três a cinco anos para poder ser indicada uma fertilização
in vitro. Significa que o casal deve tentar tratamentos menos
complexos, mas se esses tratamentos não resultarem
em gravidez, o médico deve orientar o casal para fazer
a fertilização in vitro ou as suas variantes.
Já os familiares devem diminuir a pressão, pois
a pressão pessoal do casal já é grande.
É muito comum os familiares e amigos quererem ajudar
e acabam por serem muito insistentes ou mesmo por fazerem
brincadeiras de mau gosto. Não significa que não
queiram ajudar, mas na maioria das vezes, simplesmente saber
que o casal está passando por tratamento e respeitar
o espaço deles já é uma grande ajuda;
quando o casal quer conversar, ele mesmo procura.
Alguns especialistas estão trabalhando com
congelamento de óvulos e de ovário. São
procedimentos eficazes?
A tentativa de congelar óvulos e tecido ovariano visa
retardar a diminuição da fertilidade causada
pela idade ou mesmo preservar a fertilidade, nos casos em
que a paciente vai se submeter a tratamentos tipo quimioterapia
ou radioterapia. O grande problema é que tanto o congelamento
de óvulos quanto o de ovário ainda são
bastante ineficazes. As pesquisas atuais visam melhorar esses
resultados. O congelamento de óvulos não é
considerado experimental, mas é muito ineficiente,
atingindo de 2% a 3% de sucesso por tentativa. Comparando
com embriões a fresco, a chance é de 50% por
tentativa e com embriões congelados a chance é
de 20% a 25%. Além disso, não se congelam óvulos
de mulheres com mais de 35-36 anos, pois o resultado é
ainda pior. Já o congelamento de tecido ovariano ou
ovário é experimental e não pode ser
oferecido como uma técnica disponível clinicamente.
Hoje, podemos congelar o ovário, mas as técnicas
de descongelar ainda estão sendo estudadas.
A compra de óvulos é permitida pelas
leis brasileiras?
Tanto a resolução do Conselho Federal de Medicina
de 1992, como a da Anvisa de 2006, não são contra
a doação de óvulos, mas são claramente
contra o comércio de óvulos. A paciente que
doa óvulos é aquela paciente que já está
fazendo fertilização in vitro, tem menos de
32, 34 anos e apresenta um número excedente de óvulos
produzidos e que não vão ser usados no tratamento.
Essas pacientes que apresentam dificuldade em engravidar,
sensibilizam-se pelo problema de infertilidade das que necessitam
de óvulos e doam, justamente, os óvulos excedentes.
No caso de uma compra ou troca de óvulos, essas mulheres
teriam que passar por um tratamento de fertilização
in vitro sem precisar, correndo riscos absolutamente desnecessários.
Como lidar com questões éticas num
momento em que há denúncias envolvendo clínicas
de reprodução de São Paulo e de Belo
Horizonte de compra ou troca de óvulos por laqueaduras
e implantação de DIU?
Anteriormente, tínhamos somente uma diretriz do Conselho
Federal de Medicina que não tinha poder de lei. Agora,
temos um regulamento técnico da Anvisa, que tem poder
de lei e que pode punir aqueles médicos que estiverem
comprando óvulos ou trocando por procedimentos médicos.
Num país pobre como o nosso, pacientes carentes podem,
num ato de desespero, querer vender um rim, uma córnea
e por que não óvulos? Corremos um sério
risco de vermos uma medicina tão famosa pelo seu lado
humanístico, como é a medicina de Belo Horizonte
e de Minas Gerais, que formou tantos médicos famosos,
transformar-se em uma medicina puramente comercial, sem preocupação
com o semelhante. Essas práticas podem comprometer
a evolução da medicina, como tristemente ocorreu
recentemente na Itália. Como é de conhecimento
geral, a reprodução assistida foi praticamente
banida naquele país após prática inadequada
de uns poucos médicos – um retrocesso histórico
e uma perda para os casais inférteis daquele país.
Pesquisadores brasileiros estão no mesmo nível
dos especialistas do Primeiro Mundo?
Na minha opinião, material humano nós temos
e é muito bom. O que nos falta é investimento
em pesquisa e em equipamentos de ponta. Mais do que isso,
o que falta é uma política de longo prazo de
investimento em educação e pesquisa. Se fizermos
uma comparação com a Coréia do Sul, há
20 ou 30 anos o Brasil se comparava em produção
científica, entre outras coisas. Hoje, a Coréia
do Sul é uma potência em pesquisa, patentes e
desenvolvimento científico, enquanto que a situação
do Brasil nessa área é patética, insignificante,
para não dizer ridícula. É incrível
observar as vitórias que nossos pesquisadores obtêm
com tão pouco investimento e recursos; somos, na verdade,
heróis. Mas não precisava ser assim, infelizmente!
|